sexta-feira, 14 de agosto de 2015

As faces do machismo nas universidades

Muitos alunos esperam um professor velho britânico, mas se deparam com uma jovem latina. A universidade é um cenário perfeito para a reprodução do poder masculino.


* O texto é da Rosana Pinheiro-Machado para a Carta Capital

Há muito tempo venho refletindo sobre as desigualdades de gênero no mundo acadêmico, nas escolas ou na política. Muitos acreditam que o sucesso feminino é a melhor arma contra um mundo predominantemente masculino. Como sou um pouco incrédula em relação ao conceito de sucesso (por não entender muito bem o que ele significa e quais os parâmetros que o definem), prefiro acreditar que a resistência se dá por palavras. Palavras públicas. Dedo na ferida. É preciso desnudar a ignorância machista e apontá-la no flagra. Nosso papel é tornar o invisível, visível.

Foucault já dizia que conhecimento é poder. O feminismo lembra que conhecimento é poder masculino. Como se reproduz, então, essa ciência dos homens? Certamente por mecanismos tão sutis e invisíveis que nem sempre são facilmente identificáveis.

Muitas mulheres quando entram em uma sala de aula pela primeira vez para ensinar seja Física ou Ciência Política enfrentam rotineiramente a ridicularizarão de meninos que simplesmente não conseguem sincronizar a expectativa – uma disciplina encarnada na figura de um homem – e a realidade. Aí começa uma longa jornada de deboches, afrontas e desdéns.


Mas isso não é observado por todos. Geralmente, só a professora que sente calada e enxerga com o canto do olho a arrogância do aluno (e da aluna também). As consequências desse ato tão pequeno, mas tão poderoso (que é engendrado por parte de meninos que, na verdade, pouco sabe sobre que está sendo ensinado) é o desenvolvimento de um processo de autodilaceração, insegurança e até pânico entre as mulheres. O ensino se torna um fardo e uma provação constante.

Foram tantas as vezes que eu entrei em sala de aula e, ao falar sobre teoria social, deparei-me com alunos que simplesmente não conseguiam me olhar nos olhos. Mas os problemas não acabam por aí. Salas de professores e corredores universitários são cenários perfeitos para a reprodução do poder masculino. Tente entrar na roda de discussão sobre política ou economia.

Não se surpreenda se seus colegas continuarem de costas para você, mais ou menos como acontece quando uma mulher tenta dar uma opinião sobre tática futebolística. Se a mulher levantar a voz para ser ouvida, será chamada de histérica. Mas se ela conseguir entrar na roda dos meninos, não é raro que sua opinião seja desprezada por gestos microscópicos, como a mudança ligeira de assunto. Uma verdadeira máquina de exclusão e de corroer autoestima.

Ao longo destes anos, ouvi muitas colegas dizerem que eu precisava me masculinizar se quisesse ser respeitada. Eu teria que aprender a “colocar o pau na mesa”. Ou apenas tornar-me “assexuada”. Mas confesso que a preguiça de colocar esse plano em prática é inversamente proporcional ao apreço que tenho pelo meu batom vermelho.

Leia o texto completo no site da Carta Capital.

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